Bento Prado Jr.

Conferência no Colóquio Aventuras da Filosofia Brasileira, USP [2017]

Autores

Paulo Eduardo Arantes

Sinopse

“pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro”.

Carlos Drummond de Andrade, Relógio do Rosário 

Não é novidade que a literatura brasileira foi responsável pela movimentação das grandes ideias nacionais – de algum modo, a ficção era o lugar onde a periferia alcançava o centro. Bem se sabe que alcançar o centro sempre foi uma preocupação da nossa formação, e a literatura, talvez meio desavisada de seu tamanho (talvez por isso mesmo), alcançou o feito que o país buscava. Como nos narra Paulo Arantes (narra mesm, pois se trata de uma prosa íntima entre a filosofia, a literatura e a construção de uma amizade), foi Mário de Andrade quem primeiro alertou que faltava à literatura nacional elaborar ideias, formular enquanto imaginava. Dado o alerta, qual não foi a surpresa de um jovem estudante de filosofia, em 1956, militante da Juventude Comunista, ao se deparar com a poesia de Carlos Drummond de Andrade? E não só com sua poesia mais facilmente palatável a um militante comunista: não foi a “rosa do povo” que provocou Bento Prado, mas sim a rosa outra, a Rosa das Trevas, de seu hermético livro Claro Enigma. Paulo Arantes, nesta conferência de lançamento do livro Ipseitas, de Bento, nos enlaça no clima nacional onde se forjou a formação (em sentido forte, Bildung) do amigo, professor e autor. O cenário era mais ou menos o seguinte: Bento, filho de uma família erudita, entra para a recente Universidade de Filosofia, Ciências e Letras, vindo de uma posição militante ativa, sobretudo antifascista, que se formava entre os intelectuais e jovens de esquerda do país. Grande leitor e admirador da literatura, principalmente da poesia de Drummond, buscava encontrar um caminho para a filosofia que tomasse certo rumo romanesco, onde a poesia do coração se encontraria com a prosa do mundo (Hegel). Segundo Arantes, essa espécie de Hans Castorp, na Montanha Mágica da Vila Buarque, queria alcançar com a filosofia, nada mais, nada menos, que a definição de si mesmo ao se articular com o ser outro. A empreitada era ousada, além de divertida e nada ingênua. Formado em berço drummondiano, importava a Bento Prado Jr. encontrar o sentimento do mundo capaz de dar vida ao engajamento do sonho rousseauniano. Isso, aqui no Brasil, isso, depois do fim do mundo em 1945. Para Paulo Arantes, esse engajamento radical, político e filosófico elaborado por Bento Prado Jr. só pôde brotar de certo sentimento compartilhado entre a literatura brasileira e a transformação da filosofia francesa durante os anos de ocupação nazista. O entrecruzamento de Sartre e Drummond foi possível diante de um engajamento contrário ao horror do mundo, fosse o horror nazista, o norte-americano das bombas ou o soviético. O feito de Bento Prado Jr., para Arantes, foi ser capaz de radicalizar esse engagement da autonomia do pensamento diante da catástrofe histórica. Não é esse também um entrecruzamento entre o coração e o mundo? Fica a pergunta.

Conferência realizada no dia 6 de junho de 2017 no contexto do “Colóquio Bento Prado Jr.: aventuras da filosofia brasileira”, que por sua vez marcou o lançamento do livro póstumo de Bento: Ipseitas.

(Resenha de Nathalia Colli)

 

Palavras-chave: Bento Prado Jr.; engajamento; Juventude Comunista; filosofia francesa; filosofia nacional; Antonio Candido; Mário de Andrade; Edmund Husserl; Jean-Paul Sartre; fenomenologia; Jean Jacques Rousseau; ipseitas; Vagner Camilo; Sentimento do Mundo; Claro Enigma; formação; literatura; romance; Hegel

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