Educação pela espera
2013
Sinopse
No livro A educação pela espera, que agora temos em mãos graças ao site Sentimento da dialética, Paulo Arantes busca desvendar o enigma que percorre o monumental ensaio das Quatro esperas, de Antonio Candido. Parte do texto de abertura já é bastante famoso, pois foi publicado no volume Antonio Candido 100 anos (organizado por Maria Augusta Fonseca e Roberto Schwarz), mas dessa vez não acaba com um reticente “continua”, ao contrário, ganha fôlego inédito com a entrada de Carlos Drummond de Andrade, entre A Rosa do povo e o Claro Enigma, bem como com a chegada de Thomas Mann e a espera que não educa ninguém no seu sanatório da Montanha Mágica. Assim, o que está em jogo é demonstrar como um crítico tão pessoalmente pacífico e civil traz à tona o mote da guerra, um de seus assuntos prediletos, que sempre esteve escamoteado dentro de suas atenções analíticas e pedagógicas, mas que foi parte de um aprendizado político da espera em uma era de expectativa total, à maneira de Bloch. A força do argumento deste texto vai se consolidando na medida em que a aproximação é também comparativa — seremos apresentados à guerra de Antonio Candido através de “As batalhas”, de O albatroz e o Chinês (2009), “As cartas do voluntário”, presentes em O observador literário (1958) e ainda o ensaio igualmente espantoso sobre Conrad, “Catástrofe e sobrevivência”, em Tese e antítese (1964). Não se trata, portanto, de qualquer guerra, mas daquela experienciada por um homem cuja existência se confunde com o seu século — a guerra total que descortinava a razão e colocava os descendentes do Iluminismo e das grandes revoluções, incluindo aqui a Russa, em prova de fogo. Passado o banho de água fria lançado por Stálin, ou na acepção drummondiana, com a chegada do russo em Berlim, a saber, a confirmação da revolução traída intuída por Trotsky, faz desmoronar a espera pela Revolução Mundial, ainda que sobrasse, do lado de cá, os intelectuais do Terceiro Mundo, envolvidos até o pescoço com o que Arantes determina como a longa guerra civil mundial. Findo o conteúdo da experiência sustentada pelas Great Expectations mundializadas, mudou o regime social da Espera. No segundo movimento, há uma nova avaliação do mundo-catástrofe, que traz para o primeiro plano Um filme falado (2003), do português Manoel de Oliveira, no qual a ação instantânea do “terror” rompe o vínculo histórico entre guerra moderna e tempo de espera, tornando-nos pessoas sem respostas. Como apêndice deste vertiginoso diagnóstico, encontramos ainda o texto “Da Noite para o Dia” em que já aparece a mudança qualitativa das expectativas sociais diante da reordenação do tempo.
(Nathalia Colli).
Palavras-chave: Antonio Candido; Quatro Esperas; Guerra; Expectativas; Tempo Presente; Ernest Bloch; Manoel de Oliveira; Modesto Carone.
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